Sobre o dia de fúria do PM de Joinville

11/06/2011

Quando os bravos choram…

No dia 17 de Março de 2011, quinta-feira, às 19:00 horas, na cidade de Joinville, um Policial Militar teve um momento de fúria ao atender uma ocorrência envolvendo menores que estariam promovendo perturbação do sossego em via pública. Àquele que tem por missão proteger a sociedade perdeu o controle emocional atirando próximo a menores, entregando a arma para um menor, tirando a farda em público e fazendo um forte desabafo sobre as dificuldades para o exercício de sua profissão e a não compensação por isso. Estas situações somente ocorrem em momentos críticos em que; pressionado pela a sua própria situação, pela situação de descontrole geral em que se encontra a sociedade e não vendo perspectivas para uma saída; o homem comete estes atos, individuais e extremos, colocando, em primeiro lugar, a sua condição pessoal em alto risco, a condição de seus familiares e, por último, colocando em “xeque” toda a sociedade.

Outros casos semelhantes ocorreram envolvendo Policiais Militares de Santa Catarina: o caso do Soldado Sílvio que no dia 12 de Maio de 1986 invadiu a TV Cultura empunhando duas armas e ameaçando todos em programa que estava sendo transmitido ao vivo, o caso do Sargento Linhard que fardado e com o boné nas mãos pedia esmolas no centro de Florianópolis e, agora o caso deste Policial Militar que dá tiros, entrega a arma para um menor e tira a farda, arrancando-a do corpo e a jogando-a para as pessoas.

Muitas questões devem ser avaliadas neste caso. E a abrangência deste caso, que é extremamente grave, é toda a sociedade.

Este policial está descontrolado pela sua situação particular de baixo salário, falta de perspectiva de ascensão funcional, regulamento militar opressor, perseguição de seus superiores, desamparo de seus familiares, etc. Ele não vê soluções para estas questões.

Este policial, além de ter que gerenciar seus próprios problemas, está cansado de ter que tentar resolver os problemas dos outros. Ele não vê soluções para uma sociedade tão “doentia”.

Este policial tem conhecimento do quanto o aparelho do estado está defasado; seja quando ele vê o criminoso sair da Delegacia antes dele; quando, na maioria das vezes, ele somente consegue chegar nas ocorrências muito depois que tudo aconteceu e ele não pode fazer mais nada; ele é chamado para atender a ocorrências que outros órgãos, que funcionam pior que a Polícia Militar, é que deveriam ser acionados; etc. Ele não vê soluções para isso.

Este policial sabe que aqueles jovens estão em via pública perturbando o sossego dos vizinhos, em sua maioria, por desleixo e negligência de seus pais que não sabem o que seus filhos estão fazendo, eximindo-se assim de suas responsabilidades de pais. O policial não vê soluções para isso.

Este policial tem conhecimento que se aqueles jovens tivessem uma quadra, campo, piscina ou pista de Skate públicos adequados para praticarem esportes e, assim, desgastarem suas energias de jovens em local adequado ou se tivessem acesso a uma escola pública de período integral onde teriam atividade esportivas e recreativas no segundo turno, não estariam praticando esporte em via pública e assim perturbando o sossego das pessoas. Ele não vê soluções para isso.

Enquanto a criminalidade em Santa Catarina se encontra em uma escala ascendente, superando em quase o dobro a criminalidade do estado de São Paulo, a escola de período integral no ano de 2009, segundo dados da Secretaria Estadual de Educação – SED-SC – representava míseros 3% do total de nossas escolas públicas, o que é uma insignificância.

A conseqüência disso tudo é que mais uma vez a segurança pública “mancha” a imagem de Santa Catarina a nível nacional, é a terceira ou quarta vez que isso ocorre somente neste ano. Os fatos se sucedem e nenhuma providencia efetiva é tomada. Essa inação do poder estatal é que torna a continuidade dessas más notícias possível.

A falta de perspectivas para solucionar estes problemas é que levou o policial ao seu dia de fúria. A pessoa se sente encurralada, sem saída ela explode colocando a si e aos outros em risco. Este foi um caso extremo e o significado dele é o do termômetro que explodiu. Apesar de ser o caso mais extremo não é um caso único, uma boa parcela dos policiais militares que estão nas ruas se encontra em níveis de estresse próximos a explodir e é preeminente providências para evitar situações ainda piores.

Falhou a instituição Polícia Militar em não dar acompanhamento psicológico ao policial para assim evitar o ocorrido. Falhou o Governo do Estado em permitir que um profissional que é ao mesmo tempo o “braço armado” do estado e é o agente da cidadania mais próximo da população se sentisse tão desamparado; baixo salário, falta de perspectiva de ascensão funcional, regulamento militar opressor, etc. Falhou o seu sindicato ou associação profissional que deixou o policial descontrolado “explodir” individualmente, que não conseguiu canalizar o descontentamento individual, que existem muitos outros na mesma condição ou bem próximo a isso, e conduzi-los de uma forma coletiva atingindo assim de forma mais eficaz seus objetivos de busca de melhores condições de trabalho para seus filiados e assim cumprir efetivamente o seu papel.

As pessoas vivem em sociedade porque elas buscam um lugar seguro, organizado, onde possam conviver em paz e harmonia com seus familiares, amigos e as outras pessoas em geral. Para conseguir cumprir seu papel, a sociedade é composta por várias partes e cada uma delas tem uma função a cumprir. Quando uma ou várias das partes que compõe a sociedade não cumprem o seu papel, inicia-se sua desestruturação e, quando este processo está em um estágio avançado, podem ocorrer greves abusivas, depedrações, fugas em massa de delegacias e presídios, criminalidade em níveis insuportáveis, convulsões sociais e estas explosões individuais.

Urge a necessidade de reformulações profundas no aparelho de Segurança Pública em Santa Catarina, e deve-se compreender da abrangência que é o sistema de Segurança Pública. A Constituição Federal de 1988, em seu artigo 144, aduz com clareza que a Segurança Pública é dever do Estado, direito e responsabilidade de todos.

A principal lição do ocorrido é, no entanto, da compreensão que é a apatia de nossos líderes em não cumprirem com suas responsabilidades que é a verdadeira causa da sociedade chegar à beira do caos.

Florianópolis/SC, 19 de março de 2011.

Escrito pelo Sargento Jair Vieira, acadêmico de história da UFSC.

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